Hoje lembrei do Quintana e do dia em que meu Dindo o avistou sentado num banco da Praça da Alfândega. Nós vínhamos de mãos dadas caminhando pela sombra dos jacarandás e eu contava com 10 compenetrados anos. Foi então que meu padrinho me arrastou para dentro da antiga livraria Sulina, bem perto dali, comprou Lili Inventa o Mundo (lançamento) e me levou de volta à Praça. Lá, o Dindo me disse que aquele poeta ali havia escrito esse livro e que eu deveria pedir um autógrafo.
Lá fui eu, misto de emoção e timidez. Assim que me aproximei, ele me deu bom dia. Estendi o livro sem dizer nada para aquele que me parecia um velhinho doce e meigo que falava arrastado, tinha pronúncia difícil e sorria com dentes amarelos uma ternura simples e cúmplice. Ele bateu com a mão no banco para que eu sentasse e escreveu
"para minha nova amiga Patrícia, do amigo velho, Mário Quintana".
Li, aqueles que eram os primeiros poemas da minha vida, milhares de vezes. Lembro da minha emoção ao explicar para as amiguinhas, para os pais, para quem me ouvisse, a genialidade do tamanco que era um hipopótamo, ou das pulgas que pulavam tanto porque também tinham pulgas. Ousei me experimentar na poesia sob a influência direta da simplicidade genial e desconcertante daquele velhinho e só alguns anos mais tarde tive a perfeita noção de quem era aquele monstro querido. Mas aí já era tarde, como vocês sabem. Eu já estava para sempre apaixonada pela poesia e pelos poetas.
Semana passada fez 12 anos que o Mário alimentou a pobre cadela faminta. Mesmo assim, dia 30 de julho ele faz 100 anos, porque poesia é indevorável.
"Tenho pena da morte - cadela faminta - a quem deixamos a carne doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos... O resto é indevorável."
"Super-Sherlockismo
A psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora."
(Mário Quintana)